Kores do Brasil

Quando tinha onze anos, o cineasta Leonardo Hwan voltava da escola com um amigo em São Paulo, quando um homem de cerca de trinta anos se aproximou, deu um susto nos garotos e gritou que eles deveriam “voltar para o país deles”.

“Nunca esqueci. Fiquei muito assustado”, diz Leonardo, de 27 anos, que é brasileiro e descendente de taiwaneses. Hoje ele conta essa história para explicar porque fazer piada do “pastel de flango” ou gritar “abre o olho, japonês” para descendentes de asiáticos é ofensivo. E ele tem que explicar diversas vezes.

“É racista, é xenófobo. Não é ‘apenas uma piada’. Você está fazendo o mesmo que o cara: está dizendo que a pessoa não pertence, que ela é estrangeira, que não é bem-vinda”, diz Leonardo.

Ele critica uma postagem do prefeito de São Paulo, João Doria, que escreveu a legenda “acelela” em vez de “acelera” (seu slogan) em uma foto durante uma visita à China, na semana passada.

“Quando você diz ‘acelela’, está tirando sarro não dos chineses de lá, mas dos imigrantes daqui, para quem a questão da língua e da adaptação é uma dificuldade real, e para descendentes que lutam há anos para serem aceitos”, afirma Leonardo.

Após a publicação da reportagem, o prefeito João Doria enviou uma nota dizendo que “admira e respeita os chineses e não teve a intenção de ofendê-los com a legenda publicada em suas redes sociais.”

“De uns tempos para cá as pessoas estão menos propensas a aguentarem certas ofensas, piadas e estereótipos. Não toleramos mais”, diz Rodrygo Tanaka, que é descendente de japoneses.

Rodrygo e Leonardo fazem parte de uma geração de filhos e netos de imigrantes de países do leste asiático que estão criando grupos para discutir identidade e discriminação.

Kiko, Beatriz e LeonardoLeonardo criou com esse objetivo o canal do YouTube Yo Ban Boo, com a atriz Beatriz Diaféria e o empresário Kiko Morente.

A estudante de ciências sociais Gabriela Shimabukuro criou a página Perigo Amarelo há quase dois anos. Ela diz que a aceitação no acidente sempre foi um processo de negociação.

“Muitas vezes, o custo social de reagir à discriminação acaba sendo muito alto. Enquanto você acata que é só uma piada e finge que tá tudo bem, você faz parte da branquitude. Mas dentro de um espaço que é bem definido – se sair dele, você incomoda”, afirma ela, que é descendente de imigrantes de Okinawa (província do Japão que possui uma cultura própria).

Luta coletiva

Para Rodrygo, que criou o Asiáticos pela Diversidade em 2015, a discussão sobre identidade asiática aumentou em paralelo com o fortalecimento de outras lutas de minorias.

Sua página fala sobre como é ser descendente de asiáticos dentro da comunidade LGBT.

Já a plataforma Lótus, criada um ano depois, faz uma intersecção entre militância asiática e feminismo.

O feminismo de mulheres asiáticas lida com problemas específicos, como a fetichização: a imposição de estereótipos que hiperssexualizam a mulher em torno da ideia de que ela é exótica e submissa. Assim, o racismo se soma ao machismo na agressão à mulheres não-brancas.

“os impactos dessas violências vão desde a perda da identidade, perda de auto estima, falta de noção sobre seu próprio valor, e demais traumas provindos de abusos físicos, mentais e emocionais”, afirma Caroline Rica Lee, da Lótus.

“A fetichização é resultado de um processo histórico. Estupros e dominação das mulheres sempre foram armas de guerra e dominação. Durante as guerras do Vietnã e da Coreia, os americanos ocuparam esses países e amplificaram a proliferação dessa ideia”, diz Gabriela, do Perigo Amarelo.

Segundo o educador e mestrando em história Fábio Ando Filho, um dos criadores do blog Outra Coluna, que existe há quase dois anos, nesse processo de dominação, enquanto a mulher era fetichizada, o homem asiático sofria um processo de emasculação.

RodrygoEle é retratado como fraco e assexuado e portanto deve ser dominado pela virilidade do homem branco. “Isso gera desde a perda da auto estima até atitudes excessivamente agressivas e machistas para compensar – e aí quem sofre são as mulheres”, diz Fábio.

Representatividade

Sabrina Kim, do canal Kores do Brasil, diz que o que a motivou a criar vídeos sobre o assunto foi ver que os filhos pequenos – de sete e cinco anos – estavam passando pelos mesmos problemas que ela tinha quando criança. “Discriminação contra coreano é sempre tratada como piada. Mas para quem passa por isso é um sofrimento real. Eu tinha vergonha de ser diferente, vergonha da língua. Ouvi coisas horríveis quando criança”, afirma.

A escritora e ilustradora Janaina Tokitaka, que também é mãe, diz que a maneira como os asiáticos são representados na ficção é hoje um dos principais causadores de ideias estereotipadas.

“São sempre papéis secundários e rasos, que reforçam a ideia da gueixa”, reclama ela, que já perdeu a conta de quantas vezes ouviu que “falava muito para uma japonesa”.

Janaína fala sobre outras abordagens incômodas. “Eu estava fazendo uma pesquisa na Japan House quando um homem apontou pra mim e disse para o filho: ‘Tá vendo, é assim que eles são. Eles estão sempre estudando. Esse é um palitinho, é assim que eles comem’. Aí ele sacou uma câmera e começou a tirar fotos. Me senti um bicho no zoológico.”

Para quem trabalha na área cultural, não é só uma questão de representatividade, mas de oportunidades de empregos.

“O papel ‘normal’, ‘neutro’ vai sempre para um branco, e quando tem um que é para asiáticos… eles colocam um branco também”, diz Beatriz, do Yo Ban Boo, relembrando casos como o da novela Sol Nascente. A globo colocou o ator Luis Melo no papel de um japonês e a atriz Giovanna Antonelli como protagonista em um núcleo nipônico.

Na época, o autor Walter Negrão disse que não encontrou “um ator japonês com estofo e a experiência necessária para fazer um protagonista” nem uma atriz “com status de estrela”. A Globo disse que a novela “não era sobre o Japão”.

A questão de representatividade é muito discutida pelo coletivo Oriente-Se, que é mais antigo e tem mais de 200 atores de ascendência asiática.

Beatriz teve que mudar de sobrenome para conseguir ser chamada para os testes de elenco. “Eu usava Koyama e nunca era chamada. Nas poucas vezes que apareciam papéis asiáticos era aquela coisa superestereotipada”, diz ela. A situação melhorou quando ela passou a usar o sobrenome do outro lado da família, Diaféria.

Minoria modelo?

“de certa forma [esse aumento da discussão] é o resultado do envolvimento de descendentes de asiáticos em políticas de esquerda. Por muito tempo, muita pessoas abraçaram o discurso de direita conservadora e acabaram acatando a ideia de minoria modelo”, afirma Rodrygo.

“Minoria modelo”, explica Leonardo Hwan, se refere ao estereótipo de que os descendentes de japoneses são dóceis, estudiosos, trabalham muito e por isso conseguiram posições de destaque na sociedade, grande presença nas universidades etc.

É uma coisa pseudoelogiosa que coloca as pessoas em caixinhas e reforça a opressão de outras minorias, principalmente dos negros. Porque quando você diz que japoneses estão bem porque são trabalhadores, você está implicando que outros grupos não trabalharam e ignorando todo um contexto de perseguição aos negros”, diz Leonardo.

Fabio Ando“o estifma social sofrido por indivíduos asiáticos no Brasil não tange âmbitos da violência racial e opressão policial que mata pessoas negras diariamente, ou o genocídio contemporâneo em curso contra povos indígenas brasileiros”, diz Caroline Rica Lee, do coletivo Lótus.

Solidariedade

Segundo Fábio e Gabriela, os descendentes de asiáticos também têm um papel no racismo antinegro, que precisa ser discutido e combatido. “Muitas vezes reproduzimos a antinegritude, permitimos que mercantilizem nossas culturas e permanecemos calados porque isso nos concede privilégios”, afirma Gabriela, do Perigo Amarelo.

“Não dá para  falar de raça no Brasil sem falar de solidariedade antirracista”, diz Fábio. Ele e Gabriela trabalham para que a discussão vá além da questão sobre representatividade e sobre ser aceito como brasileiro.

“Alguns leitores no blog falam: ‘Ah, então vamos votar em asiáticos para ter mais representação’. Mas não é isso. Não adianta nada votar em asiáticos se eles tiverem uma plataforma neoliberal, uma plataforma que não promova a igualdade”, diz Fábio.

“A gente não pode se contentar em brigar para ser visto como brasileiro e não como estrangeiro. Como você pode falar de brasilidade em um país construído com a ocupação de terras indígenas? A gente vai se contentar em exigir os mesmos privilégios dos brancos ou vamos pensar em construir uma sociedade que seja mais igualitária e justa para todos?”, questiona Gabriela.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40816773

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Diálogo abriu debate sobre a importância de gestores garantirem um ambiente sudável (não só do ponto de vista físico) no trabalho.

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A programadora Madalyn Parker compartilhou em uma rede social um diálogo entre ela e o CEO da empresa em que trabalha. O que Madalyn dificilmente imaginava é que aquela conversa viralizaria — e abriria um importante debate na rede social.

 

Tudo começou quando a profissional, que sofre de depressão crônica e ansiedade, mandou um e-mail para sua equipe dizendo que precisaria se ausentar por dois dias. “Oi, pessoal. Eu vou tirar hoje e amanhã para me concentrar na minha saúde mental. Espero voltar na semana que vem renovada e 100%. Obrigada!”, dizia a mensagem.

Madalyn trabalha em uma empresa de tecnologia chamada Olark, que cria chats para sites. Copiado na mensagem, o CEO da companhia, Ben Congleton, respondeu a funcionária: “Oi, Madalyn. Eu só queria pessoalmente agradecer a você por enviar mensagens como essas a sua equipe”.

Ele continou: “Toda vez que você faz isso, eu me lembro da importância de usar o afastamento médico também para a saúde mental — acredito que essa não seja a prática padrão em todas as empresas. Você é um exemplo para todos nós, e nos ajuda a superar um estigma”.

Madalyn compartilhou a conversa no Twitter e a posição do CEO foi bem recebida na internet. Até agora, a mensagem foi curtida mais de 35 mil vezes e retuitada mais de 10 mil.

Na semana passada, Congleton escreveu uma postagem no Medium discutindo a reação que o tuíte desencadeou. O texto é intitulado: “É 2017 e a saúde mental ainda é um problema no local de trabalho”.

“É 2017. Eu não consigo acreditar que ainda é controverso falar sobre saúde mental no local de trabalho quando um em cada seis americanos toma remédio para saúde mental”, escreveu. “É 2017. Estamos em uma economia baseada no conhecimento. Nossos trabalhos exigem que executemos tudo com o máximo de desempenho mental. Quando um atleta está ferido, senta-se no banco e se recupera. Vamos nos livrar da ideia de que com o cérebro é diferente.”

Fonte: http://epocanegocios.globo.com/Carreira/noticia/2017/07/funcionaria-diz-que-vai-se-ausentar-para-cuidar-de-saude-mental-e-resposta-do-chefe-viraliza.html

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A tristeza, a frustração, a dor e o medo não afetam somente quem sofre de depressão. Saiba como entender e lidar com esses momentos difíceis vividos por uma pessoa querida.

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“A alegria acaba, o sorriso vai embora. Tudo se torna uma desgraça. É um tormento sem fim. Como se tivesse uma nuvem escura em cima de você e você não conseguisse escapar”, relata Samuel*, ao recordar o período de depressão pelo qual sua esposa passou.

O transtorno veio após um grave acidente de carro. Ela ficou hospitalizada e, após um longo período de convalescência, não pôde mais retornar ao trabalho devido aos ferimentos sofridos.

“Você acha que a pessoa está ficando louca. É muito difícil, especialmente no começo, quando você não sabe o que está acontecendo”, afirma Samuel à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Quando alguém recebe um diagnóstico de depressão, compreensivelmente todas as atenções se voltam para essa pessoa.

No entanto, os familiares e amigos que convivem e tomam conta dela também passam por momentos muito difíceis. Segundo psicólogos, também correm risco de desenvolver um quadro depressivo e precisam se cuidar.

Em meio a todos os problemas causados pela depressão, a vida continua. As contas de casa continuam chegando, é preciso cozinhar, trabalhar e tomar conta dos outros membros da família, especialmente quando há crianças.

Samuel conta que todas as manhãs precisava levar seus filhos, de 4 e 5 anos de idade, à escola antes de ir ao trabalho.

“Não havia opção, tinha que continuar trabalhando e tentando proporcionar aos nossos filhos um pouco de rotina e normalidade. Quando a gente voltava, ao final da tarde, eu descia do carro antes e dizia às crianças para esperarem até eu voltar para buscá-los”, relata.

“Eu abria a porta de casa e dava uma olhada para ver como estavam as coisas. Tinha medo de encontrar minha esposa enforcada. Então tinha que me assegurar de que meus filhos não iriam presenciar algo tão traumático.”

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Sentimentos intensos
Aqueles que passam por situação semelhante contam que é muito difícil administrar a intensidade dos sentimentos.

“Todos os dias a minha esposa dizia que queria morrer. Eu ficava aterrorizado. Você se sente cansado, frustrado, angustiado, triste. Não tem força, não vê como vai sair do buraco”, diz ele.

Rebeca*, mãe de um adolescente de 14 anos de idade, também passou por situação semelhante. Sua voz fica embargada ao descrever um dos piores momentos da crise que enfrentou.

“Mamãe, me deixe morrer, me deixe morrer”, dizia o menino em uma das três ocasiões em que tentou tirar sua própria vida.

“Você sente pavor, dor, medo. É uma situação extremamente estressante. Você vê o seu filho sofrendo e não sabe como agir, o que fazer. Sentia que o meu coração e a minha vida estavam sem um pedaço”, conta Rebeca.

TIPOS DE DEPRESSÃO

Moderadamente severa
O efeito no dia a dia não é tão agudo. A depressão desse tipo pode causar dificuldades de concentração no trabalho e afetar a motivação em fazer atividades que normalmente seriam prazerosas.

Grave
Afeta o dia a dia do indivíduo. Coisas básicas como comer, tomar banho e dormir se tornam difíceis. A internação em um hospital pode ser necessária.

Desordem bipolar
As pessoas que sofrem dessa condição apresentam variações extremas de humor. Elas podem se sentir eufóricas e indestrutíveis e, em seguida, serem acometidas por desespero, letargia e pensamentos suicidas.

Depressão pós-natal
Afeta algumas mães após o parto. Ansiedade, fadiga, falta de confiança e sentimento de incapacidade de cuidar do bebê são alguns dos sintomas apresentados por quem sofre desse tipo de depressão.

Fonte: Mental Health Foundation

Quem cuida de um indivíduo com depressão deve encontrar tempo para cuidar de si mesmo.

Fonte: http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2016/11/tinha-medo-de-encontrar-minha-esposa-enforcada-como-e-viver-com-alguem-que-sofre-de-depressao.html

 

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507827681Mais de 13 mil crianças e jovens entre um e 19 anos foram atendidos.
Maioria das vítimas teve acesso aos medicamentos com própria família.

As hospitalizações por overdose de analgésicos opioides mais que dobrou entre as crianças e adolescentes americanos entre 1997 e 2012, de acordo com um novo estudo publicado na segunda-feira (31).

Tentativas de suicídio e ingestão acidental foram responsáveis por uma parte crescente dessas intoxicações, disseram os autores do artigo publicado na revista médica JAMA Pediatrics.

Eles identificaram mais de 13 mil casos de crianças e adolescentes de entre um e 19 anos hospitalizados por overdose de opioides prescritos por médicos, das quais 176 morreram.

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Entre as crianças de um a quatro anos, as internações aumentaram 205%, e entre os adolescentes de 15 a 19 anos, 161%.

As crianças pequenas foram hospitalizadas principalmente por ingestão acidental de analgésicos, enquanto as tentativas de suicídio ou os ferimentos autoinfligidos representaram a maioria dos casos de overdoses entre os adolescentes com mais de 15 anos de idade, disse a coautora Julie Gaither, epidemiologista na Escola de Medicina da Universidade de Yale.

As overdoses entre outros adolescentes resultaram provavelmente de tentativas de sentir efeitos semelhantes aos de drogas.

Os autores atribuem a explosão do número de overdoses de analgésicos entre as crianças aos seus pais ou a outros adultos em suas famílias que forneceram acesso aos medicamentos.

Em geral, as intoxicações atribuídas a medicamentos prescritos se tornaram a principal causa “de morte resultante de lesão” nos Estados Unidos, afirmam os pesquisadores.

Isso se deve, principalmente, ao grande aumento da presença de analgésicos poderosos em lares americanos.

O uso de drogas disparou nos últimos anos nos Estados Unidos, o que levou as autoridades a soarem os alarmes sobre o aumento acentuado de casos de overdose e dependência.

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Em 2012, os médicos americanos prescreveram 259 milhões de receitas de analgésicos opioides.

O estudo também revelou que 73,5% das crianças e adolescentes que tiveram overdose de opioides eram brancos, e que quase metade deles tinha seguro médico privado.

A proporção de jovens de famílias que têm a cobertura do Medicaid – seguro de saúde federal para americanos de baixa renda – hospitalizados por overdose de opioides aumentou de 24% em 1997 para 44% em 2012, diz o estudo.

 

Fonte:http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/10/hospitalizacoes-por-overdose-de-opioides-dobra-entre-jovens-nos-eua.html

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Jung é filho de Freud e tem a missão de continuar o trabalho do pai: colocar um sorriso no rosto dos que passam pelos velórios do Memorial Metrópole Ecumênica de Santos – um prédio de 14 andares que lhe dá o título do mais alto cemitério do mundo.

Freud morreu em outubro, aos 11 anos, e ganhou esse nome por causa da barbicha de sua raça, schnauzer. Além do cemitério, Jung e seu irmão Teddy, também frequentam hospitais – adulto e infantil, casas de repouso, eventos para crianças autistas e com paralisia cerebral, creches, escolas e casas de reabilitação.

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Freud foi o pioneiro da Dr.Auau, que coloca em prática, há 11 anos, a chamada zooterapia – “uma terapia focada em como usar animais para uma interação positiva com os homens”, comenta sua fundadora Victoria Girardelli, jornalista.

Victoria teve essa ideia a partir de um momento pessoal – o acolhimento de Freud durante o processo de cura de um câncer. A presença do animal foi tão importante que a fez pensar em como compartilhar essa experiência. “Ele foi fundamental, me fez companhia, me deu forças, e eu pensei: não quero que ele seja só meu”. Passou a levar Freud para uma república de idosos e a hospitais infantis. Victoria diz que a presença do cachorrinho nesse tipo de ambiente é positivo porque motiva a criança a sair do leito, a andar pelo corredor, a pegar o animal no colo, o que ajuda no intestino, contribuindo para a alta.

Há cerca de um ano, Freud passou a frequentar o Memorial Metrópole Ecumênica de Santos e, segundo sua dona, foi o primeiro cão do mundo a fazer esse tipo de trabalho no ambiente de luto. Com um colete azul de bolsos para levar mensagens de conforto, Freud (e agora Jung) passou a visitar velórios e agradar aqueles com quem interage. “Nesse momento de afago e carinho, você já consegue mexer com os hormônios ocitocina e endorfina, que trazem prazer”, comenta Victoria.

Ela diz que a aceitação é 100% e não há reclamações. O serviço é gratuito e normalmente o cachorro fica na parte externa do velório. Mas se for requisitado, entra na sala. Às vezes, o parente leva o cachorro para ‘apresentá-lo’ ao morto. “Tem gente que pega no colo, leva para o falecido, conversa, tira um cartão e lê em voz alta. E dizem ‘nossa, era isso que eu precisava ouvir agora’. ”

Alguns exemplos de frases levadas aos velórios:

“Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós” – Chico Xavier.

“O sofrimento é o intervalo entre duas felicidades” – Vinicius de Moraes.

“Há coisas que nunca poderão se explicar com palavras” – Saramago.

“A vida não passa de uma oportunidade de encontro. Só depois da morte se dá a junção. Os corpos tem apenas o abraço, as almas, o enlace” – Victor Hugo.

Para Victoria, a morte é única certeza que a gente tem, mas é uma dor sem medidas e muito pessoal – “cada um passa de uma forma, cada um tem a sua leitura, o seu tempo”. Por isso, esse tipo de carinho num momento de fragilidade é sutil e bastante positivo. “Encontrei minha missão e não largo o osso”, comenta.

Fonte: http://mortesemtabu.blogfolha.uol.com.br/2016/11/01/cemiterio-tem-cachorrinho-que-auxilia-em-velorios/

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Tem um provérbio chinês que diz: “Você não pode evitar que os pássaros da tristeza voem sobre a sua cabeça, mas pode evitar que eles construam ninhos em seus cabelos”.

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Encontrei a citação em um dos textos disponíveis no site do Instituto Quatro Estações, que dá suporte psicológico para situações de perdas e lutos. Desde a morte de minha mãe, há quase quatro meses, tenho visitado virtualmente o espaço em busca de algum conforto para a alma.

A perda da minha amada tem sido a experiência mais assustadora e dolorida da minha vida. A vida segue seu rumo, só que infinitamente mais triste.

Ainda assim, sigo acreditando que haja vida no luto, haja esperança de transformação, de recomeço. E é o que estou buscando. Um dia de cada vez, só por hoje, como costuma dizer minha amiga Helena Lima.

Sei que o processo de luto implica a superação de várias etapas, entre elas a real aceitação da perda e da adaptação da vida sem a minha mãezinha. Sei também que cada experiência de luto é pessoal, única, e tem seu próprio tempo. E que um luto dessa magnitude acaba reeditando lutos anteriores.

Por isso, estou tentando olhar e cuidar com carinho dessa dor. Sem a minha pressa habitual de tentar me livrar o mais depressa possível do que me faz sofrer.

O luto nos lembra que é necessário ser paciente com nós mesmos. E com as pessoas que, na tentativa de ajudar, acabam por pressionar com frases do tipo “você tem que ser forte, superar; será um antidepressivo não ajudaria?”.

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Nessas leituras sobre o luto, aprendi um conceito novo de reconciliação. Segundo a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, a palavra dá um sentido mais apropriado sobre o processo vivido no luto.

Não significa passar pelo luto, mas sim crescer por meio dele, “aprender como lidar com essa nova realidade de se mover ao longo da vida sem a presença física da pessoa que morreu”.

Sei que o sentimento de perda nunca desaparecerá completamente, mas espero que, com o tempo, seja atenuado, doa menos.

No último domingo (30), visitei o túmulo de mamãe pela primeira vez desde a sua morte. Relutava em ver sua foto sorridente, feita dois meses antes de sua morte. Estávamos em Santos, comendo um peixinho, tomando uma cervejinha e fazendo planos para o seu aniversário de 80 anos, que não deu tempo de ser comemorado.

No cemitério, várias famílias preparavam seus jazigos para o Dia de Finados, nesta quarta (2). Se viva estivesse, certamente minha mãe estaria fazendo o mesmo, especialmente, distribuindo flores nos túmulos de parentes e amigos. Mamãe era assim: doce com os vivos e os mortos.

Entre lágrimas, eu e meu velho pai repetimos o ritual, distribuindo flores, lembrando dos nossos mortos. Na saída, um coleirinho (também conhecido como coleirinha), um pássaro que não via desde a infância pousou em um dos túmulos.

Andamos mais alguns metros e meu pai apontou: “olha ali um periquito”. Mais adiante, avistamos um canário e, em seguida, um sabiá. E de repente, o cemitério estava pleno de vida.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiacollucci/2016/11/1828237-mamae-era-assim-doce-com-os-vivos-e-com-os-mortos.shtml

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Conheça a “doença disfarçada de virtude” que pode ter consequências desastrosas para a saúde

Tudo começa com o desejo de nos sentirmos bem, comendo apenas alimentos puros, “limpos”.

 Até aí, tudo bem.

Isso nos leva a dizer adeus a certos grupos de alimentos, como grãos, açúcares e produtos animais.

493208769No final, a dieta se reduz a uma quantidade tão restrita de alimentos que acabamos ficando desnutridos.

Esse transtorno tem um nome: Ortorexia Nervosa.

O termo foi criado em 1997 pelo médico americano Steven Bratman, aliando a palavra para “correto” ─ do grego orthos ─ com “apetite” ─ orexis ─ (de onde vem, aliás, a palavra anorexia, ou, sem apetite, transtorno que, muitas vezes, é mascarado pela ortorexia).

Embora o objetivo do anoréxico seja perder peso, e o do ortoréxico, ficar saudável, ambos os transtornos restringem a alimentação do indivíduo, colocando sua vida em risco.

No entanto, enquanto a anorexia é reconhecida como um mal, a ortorexia tem a desvantagem de ser uma doença “disfarçada de virtude”.

 Tendência crescente

Uma dieta baseada em alimentos frescos, não industrializados, está longe de ser ruim. O problema é quando isso se torna uma obsessão.

Citando exemplos de dietas que considera preocupantes, Bratman faz alusão a pessoas que têm medo de consumir laticínios, ou aquelas que só consomem alimentos crus (por temer que o processo de cozimento dos legumes e verduras “destrua seu campo etéreo”).

“No final, o ortoréxico acaba passando grande parte da sua vida planejando, comprando, preparando e comendo seus pratos”, explica Bratman em seu livro Health Food Junkies (em tradução livre, “Viciados em Comida Saudável”).

Quando escreveu a obra, no final da década de 90, Bratman se referia a hábitos alimentares de pequenos grupos de pessoas.

Quase duas décadas depois, a obsessão com a comida saudável está por toda parte, inclusive no mundo digital. Para confirmar esse fato, basta fazer uma busca por #CleanEating no Instagram ou no Twitter.

498072037Experiência pessoal

Bratman não só deu nome ao transtorno como também foi a primeira pessoa a ser diagnosticada com ele. O médico admitiu ue se deixou seduzir de tal forma pela “alimentação virtuosa” que se negava a comer legumes mais de 15 minutos após seu cozimento.

Mais recentemente, em seu site na internet, ele declarou: “No meu livro de 1997 e em tudo o que tenho escrito até agora, venho dizendo que enquanto os anoréxicos desejam ser fracos, os ortoréxicos desejam ser puros”.

“No entanto, a realidade me obriga a reconhecer que a distinção já não é tão clara. Me parece que uma alta porcentagem de ortoréxicos hoje em dia se foca em perder peso.”

“Como deixou de ser aceitável que uma pessoa magra conte as calorias que consome, muitas pessoas que seriam diagnosticadas como anoréxicas falam em ‘comer de maneira saudável’, o que, por coincidência, implica em escolher apenas alimentos com baixo teor calórico”.

Sem fundamento

“Esses pratos inspirados pelo Instagram, com umas folhas de espinafre, uns grãos de quinoa ─ que estão muito na moda, algumas sementes de romã ─ que são lindas ─ são muito bonitos, mas não têm nutrientes suficientes”, disse à BBC Miguel Toribio-Mateas, nutricionista e especialista em neurociência clínica.

“Você termina com uma comida que te dá 200 calorias, o que não é nada em termos energéticos, e sem proteínas. Está tudo bem se você tem vontade (de comer assim um dia ou outro) mas se você se recusa a comer o resto da comida normal porque acha que ela é suja ou algo que você não pode jamais colocar na sua vida porque vai te fazer mal, há um problema”, acrescenta o especialista.

E se o termo “comida normal” deixa você confuso, o nutricionista faz alusão, por exemplo, a um prato de “peixe com batatas”.

Hoje em dia, há tamanha avalanche de conselhos sobre nutrição e saúde na internet e na mídia que fica difícil ignorá-los e lidar com eles.

“O açúcar, nesse momento, é o demônio. Porque se você o consome com muita frequência, no mínimo ganha um pouco de peso. E se (faz isso) descontroladamente, pode desenvolver diabetes (do tipo) 2. Mas de vez em quando, ter a flexibilidade mental para poder decidir, ‘hoje vou comer um chocolate’, é importante. E isso é impossível para os anoréxicos”, disse Toribio-Mateas.

Além do problema de ser aceita socialmente, a ortorexia também é tida como doença “do primeiro mundo”, ou “das classes privilegiadas” ─ o que não está de todo errado, disse o nutricionista.

“Se você tem de contar o dinheiro antes de ir às compras, não vai pagar o que cobram pelos alimentos que estão na moda e são tidos como ‘limpos'”.

E acrescentou: “Não é que a romã não seja deliciosa. Mas se você pretende viver dela e de outros poucos produtos sobre os quais você leu que possuem alto teor de antioxidantes e nada mais, essa não é uma decisão racional”.

170636789Bem informadas

Toribio-Mateas disse que a maioria dos seus pacientes é mulher. Segundo ele, elas vêm procurar conselhos para uma dieta “perfeita”. Ou são arrastadas à clínica pelos familiares ─ já que elas próprias estão convencidas de que não há nada de errado.

“É difícil tratá-las, até porque são muito bem informadas”, explicou. “Tenho uma paciente que só come legumes fervidos ou grelhados. Rejeita a carne por causa dos hormônios, rejeita os ovos porque acha que têm gordura demais, só consome uma quantidade mínima de óleo de coco ─ porque está convencida de que ele ajuda a queimar gordura.”

“Há mitos que são mais fáceis de derrubar, mas como dizer a alguém que não coma tantos legumes?”, perguntou.

“Tenho de convencê-la a introduzir (em sua dieta) outros alimentos que, segundo exames clínicos, estão faltando no seu organismo.”

Finalmente, a ortorexia não implica apenas em uma redução nas opções alimentares do paciente.

“Os ortoréxicos não podem ir a um restaurante ou bar porque não sabem o que está sendo servido. E não podem ir comer na casa de amigos, a não ser que eles também sejam ortoréxicos”, concluiu Toribio-Mateas.

Fonte: http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2016/07/ortorexia-nervosa-o-transtorno-que-mostra-que-ate-o-saudavel-em-excesso-e-ruim.html

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A geração Y, nascida entre os anos de 1980 e 1990, quer trabalhar em empresas que compartilhem de seus valores e crenças, de acordo com uma pesquisa realizada neste ano pela consultoria Deloitte.

Para acomodar essas demandas, a área de Recursos Humanos, antes conhecida pelo trabalho burocrático de supervisionar contratações e a folha de pagamento, tenta se adaptar para manter os melhores funcionários.

“O antigo ‘departamento pessoal’ era um cartório”, diz João Baptista Brandão, professor de liderança e gestão de pessoas da FGV (Fundação Getúlio Vargas). “A nova geração é questionadora, e isso passou a ser aceito. Hoje, o RH desenha o ambiente da empresa”, afirma.

Para manter o jovem interessado, vale desde criar métricas de performance que permitam uma ascensão rápida até montar um bar.

É o caso da Diageo, multinacional do setor de bebidas, que recebe os funcionários para apresentar os resultados e oferece drinks do portfólio da casa. “Porém, o bar está inserido num ambiente de trabalho e só opera em ocasiões especiais”, afirma o diretor de RH João Senise.

Na norte-americana Stamples, que vende materiais de escritório e papelaria, em vez de café são servidos doces nos encontros com o diretor de RH, Alexandre Fleury.

Para Theunis Marinho, presidente da ABRH-SP (Associação Brasileira de Recursos Humanos), o funcionário não se motiva mais só com o salário. “Uma empresa se torna desejada por ter políticas que indicam ser possível realizar alguns sonhos ali.”

FEEDBACK E RESULTADO

A empresa de tecnologia Just Digital optou por abolir o RH, e a formação de lideranças é conduzida por suas próprias áreas. “Os líderes vão nascendo de forma orgânica. Eles se organizam e sempre há um que se destaca”, diz o CEO Rafael Cichini.

Para o colaborador Daniel Santos, há vantagens nesse modelo. “Isso estimula uma maior autonomia do funcionário. Para mim foi muito positivo”, diz.

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Já a Whirpool, que fabrica equipamentos domésticos, dá feedbacks frequentes. “A gente estimula que o gestor converse sobre isso, principalmente com a geração Y, que exige uma resposta mais assertiva e específica”, diz a diretora sênior de Recursos Humanos Andrea Clemente. As promoções não são baseadas em tempo de casa.

Mesmo quem sai de algumas empresas pode continuar no radar, como no Grupo Votorantim, que mantém contato com ex-trainees. Foi assim que André Carloni, hoje gerente da área de gestão imobiliária. “Fiquei muito honrado por ser cotado pela empresa após dois anos longe”.

Para Brandão, da FGV, as estratégias são positivas, mas é preciso realmente ouvir pedidos dos funcionários. “Não ter tempo para falar com a equipe é um tiro no pé.”

O QUE VEM POR AÍ

Nos próximos anos, as áreas de Recursos Humanos serão desafiadas sobretudo pela inovação tecnológica, segundo o especialista em capital humano Luiz Barosa, da consultoria Deloitte.

Realidade virtual, internet das coisas, inteligência artificial e até robótica devem ganhar terreno dentro das empresas. “Vamos ver essas ferramentas ocupando espaços das pessoas”, afirma.

Para a diretora de RH da Whirpool, Andrea Clemente, a exigência por diversidade no mercado deve crescer mais, sobretudo em questões de gênero. “É preciso preparar os líderes para entender como essa representatividade pode contribuir com a empresa”, diz.

É a estratégia da Natura, que quer metade do corpo de diretores e vice-presidentes mulheres até 2020. A cifra hoje é de 32%, segundo a diretora de RH Fatima Rossetto.

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Fonte: http://classificados.folha.uol.com.br/empregos/2016/06/1780614-chegada-da-geracao-y-ao-mercado-forca-renovacao-na-gestao-de-pessoas.shtml

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85471355A cena é corriqueira: uma adolescente se olha no espelho, não gosta do que vê e entra em crise – não quer sair de casa, não quer ver ninguém, tem muita vergonha de si mesma. Para Solange C., publicitária de 29 anos, essa “crise” já dura cerca de 15 anos e só foi diagnosticada mais tarde como uma doença com nome e sobrenome: dismorfia corporal ou transtorno dismórfico corporal, entre outros nomes. E o que parecia excesso de vaidade levou Solange a uma depressão profunda e a uma existência que se dividia entre o ódio e a submissão ao espelho. “Sempre fui muito insegura com relação a minha aparência. E, na adolescência, as coisas pioraram, tinha crises fortes de choro e não queria sair de casa. Meus pais achavam que era coisa de menina, besteira. Fui a muitos psicólogos todos esses anos, e só aos 26 me deram o diagnóstico correto: dismorfia corporal”, ela conta.

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Constantemente confundida com uma preocupação superficial, relativamente comum em tempos de formas perfeitas em revistas e programas de TV, o maior perigo da dismorfia está no diagnóstico difícil. Afinal, não faltam por aí mulheres e homens querendo ser mais magros ou fortes, insatisfeitos com a aparência e lançando mão de todos os tipos de ginásticas, remédios, tratamentos estéticos e dermatológicos e até intervenções cirúrgicas em busca de uma beleza irreal. Mas a questão envolvendo a doença é mais profunda: “A dismorfofobia não está relacionada à vaidade, é mais uma questão de aceitação. O paciente enxerga um defeito muito maior do que ele realmente é e a vida dele fica restrita àquela característica”, explica o médico psiquiatra Celso Alves dos Santos Filho. O que torna o acesso ao tratamento mais complicado é a dificuldade que o doente tem em encontrar apoio e a vergonha que sente por sofrer tanto com sua forma física.

E o que, de fato, leva à dismorfia corporal? Além dos já mais do que discutidos exigentes padrões de beleza, da pressão dos amigos, da sociedade e até dos pais, existe um fator obrigatório para o desenvolvimento da doença: predisposição genética. “A doença deforma a autoimagem corporal da mesma forma que outros transtornos alimentares, como anorexia e bulimia. Pode ser associada a uma fragilidade do ego, mas a predisposição genética é necessária”, explica Patrícia Spada, psicóloga e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp.

159666990A diferença essencial entre os transtornos alimentares e a dismorfia é que os primeiros são relacionados com as questões alimentares, o peso – o doente nunca se enxerga magro o suficiente; já a segunda é voltada à insatisfação com a imagem corporal concentrada – a pessoa “implica” com uma característica específica ou geral, o doente não gosta de várias coisas em si mesmo.

E, afinal, o que o dismórfico vê quando se olha no espelho? Segundo a psicóloga, uma alucinação. “Ele pode até ter um nariz proeminente ou estar levemente acima do peso, mas potencializa aquilo a um nível exagerado. O paciente imagina que as pessoas vão olhar para o defeito e aquilo vai virar o foco principal”, ela diz.

É importante ressaltar que a dismorfia não é uma doença exclusiva dos adolescentes, ela atinge todas as faixas etárias e pode ser desencadeada sob diversas circunstâncias, inclusive logo cedo, na infância e dentro de casa. “Um ambiente familiar que não reconhece a identidade da pessoa, a falta de apoio ao doente dentro de casa, a dificuldade em conseguir resolver seus conflitos são situações que agravam o problema. A educação da criança é fundamental para definir se ela terá ou não potencial para desenvolver a dismorfia”, diz Patrícia.

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Vaidade ou transtorno?

Por não ser uma doença de identificação simples, os portadores do transtorno dismórfico sofrem por muitos anos com um problema que acabam acreditando ser normal na vida das pessoas “feias” e se tornam inseguros, depressivos e sempre insatisfeitos. “Muitas pessoas podem portar a doença sem saber. Elas não percebem que é um transtorno emocional, acreditam que se corrigirem aquele defeito vão resolver sua vida”, explica o psiquiatra Celso Alves.

E, nesse meio-tempo, o quadro tende a piorar: geralmente evolui para depressão e o doente recorre a variados métodos para corrigir o que o incomoda. Solange, que tomava banho no escuro por vergonha do corpo, colocou silicone nos seios. Além disso, clareou os dentes duas vezes, que, alvos constantes de sua insatisfação, também passaram por uma série de mudanças. “Achava os meus dentes muito tortos. Usei aparelho fixo dos 11 aos 15 anos, mas ainda os via desalinhados. Nenhum dentista quis arrancar um dente bom para colocá-los no lugar. Eu nem sorria nas fotos. Resolvi, então, lixá-los com lixa de unha. Por fim, fui a um dentista que lixou os meus caninos e fez aplicações de resina”, ela conta.

Levando em conta que a vaidade é inerente à natureza do homem, há muitos questionamentos sobre qual é o limite que separa a simples preocupação com a aparência da dismorfia corporal. Segundo a psicóloga Patrícia Spada, a resposta é: quando essa preocupação passa dos limites. “O alerta está no dia a dia: o transtorno existe quando prejudica a vida da pessoa, ela passa a viver em função daquilo. 165075968A pessoa é tão preocupada com a aparência que não consegue desempenhar tarefas simples do cotidiano. Esse é o diferencial do diagnóstico”, ela explica. Isso significa que, além do especialista, quem ajuda a reportar a identificação da doença é o próprio paciente e as pessoas próximas a ele. Cirurgiões plásticos e dermatologistas, dois dos especialistas mais procurados pelos dismórficos, também podem encaminhar o paciente a um psiquiatra se acharem que o caso pede. Fora os sintomas e sinais mais subjetivos, não há, até o momento, transformações físicas que indiquem o transtorno. “É bem provável que exista uma alteração cerebral, mas ainda não foi identificada”, diz Celso Alves.

Recuperação lenta

O tratamento exige, sobretudo, paciência. Normalmente é psiquiátrico, com antidepressivos, psicoterapia e acompanhamento familiar. O efeito dos remédios para a dismorfia é secundário: melhora os quadros de depressão e ansiedade e, por consequência, diminui o sofrimento do paciente e aumenta a autopercepção. Para os casos menos graves, o doente pode se beneficiar bastante da psicoterapia. Se em alguns meses não apresentar melhora, os remédios são introduzidos no tratamento. Mas vale lembrar: a recuperação é lenta e contínua.

Solange hoje diz que em uma escala de 0 a 10, ela está no 7,5: “Comecei há dois anos com o tratamento psiquiátrico e resolvi mudar a minha vida. Saí de Florianópolis, minha cidade natal, que hoje não consigo deixar de associar ao meu fracasso pessoal, e fui morar no Rio de Janeiro. Melhorei bastante, considerando que tive fases em que nem banho tomava, mas ainda não gosto de muita coisa em mim mesma. Todo dia eu preciso rever minha postura, qual é o grau de importância da aparência para as pessoas, como eu avalio a beleza. É uma autoanálise diária”.10187397

Alerta dismorfia!

Além da preocupação exagerada com a aparência, existem outros sintomas que sinalizam a doença.

São eles:

• Insatisfação permanente com tudo e consigo mesmo
(sempre acha que faz tudo errado, que a vida é chata)
• Mau humor constante
• Irrita-se facilmente
• Dificuldade em desempenhar tarefas
• Dificuldade em se relacionar
• Timidez em excesso
• Tristeza e depressão

Fonte: http://www.onehealthmag.com.br/index.php/inimigos-do-espelho/

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A primeira palavra que vem à mente quando se está diante de Pradeep Bala é “grande”. O indiano de 25 anos tem braços enormes, ombros largos e um grande peitoral. Mas ele não está feliz com seu tamanho.

Sua obsessão em conseguir o corpo “perfeito” é, na verdade, um distúrbio de ansiedade pouco conhecido: a vigorexia. Formalmente conhecido como “dismorfia muscular”, também é descrito às vezes como uma anorexia ao contrário.

Ele se caracteriza por uma incompatibilidade entre o corpo de uma pessoa e a imagem que ela tem de si mesma. Mesmo sendo grande e musculosa, ela se vê “pequena”.

Para Pradeep, que mora em Londres, no Reino Unido, tudo começou quando ele passou a se comparar aos homens musculosos que ilustram páginas de revistas. “Pensava que, se eles conseguiam ficar assim, eu podia também”, diz.

Com 1,70m de altura, ele tem um físico que se encaixaria perfeitamente numa revista de fisiculturismo, mas que considera insuficiente.

“Definitivamente, sou pequeno. E costumo ser duro comigo. Digo para mim: ‘Qual é o seu problema? Olhe para você. Vire homem'”, afirma.

“Esse diálogo interno faz com que pouco a pouco eu fique mais ansioso e depressivo.”

Distúrbio desconhecido

A vigorexia pode afetar homens e mulheres, mas costuma ser mais prevalente entre eles.

Estima-se que um de cada dez homens que frequentam academias no Reino Unido sofra deste problema, que pode levar à depressão, uso de anabolizantes e até mesmo ao suicídio.

No entanto, muitos casos não vêm a público, segundo Rob Willson, presidente do conselho da Fundação de Distúrbio de Dismorfia Corporal.

Ele diz que esta condição vem se tornando mais frequente, mas que muitas pessoas deixam de ser diagnosticadas, porque o distúrbio ainda é desconhecido.

“Temos milhares e milhares de pessoas assim, que se preocupam excessivamente com sua aparência e têm baixa autoestima”, afirma Willson.

“Esta ansiedade e preocupação em demasia podem deixar alguém deprimido a ponto de levar ao suicídio.”

Fora de controle

No caso de Pradeep, começar a malhar e seguir uma dieta rígida fez ele sentir-se ótimo a princípio, mas logo isso saiu do seu controle. Por mais musculoso que ficasse, ele nunca estava satisfeito.

Ele diz ter chegado à conclusão de que tinha vigorexia no fim da adolescência. Mas não foi algo simples.

“No início, não me importei. Não queria acreditar que a vigorexia existia e que tinha esse problema”, conta Pradeep.

“Foi somente anos depois, ao ver alguns documentários, que eu assumi que tinha algo errado.”

A vigorexia gerou vários outros problemas em sua vida. “Perdi amigos, porque me isolava, não falava com ninguém, não atendia ligações nem respondia emails. Só acordava, trabalhava, malhava e dormia”, diz.

“Sentia a necessidade de bloquear qualquer vida social até estar satisfeito o suficiente com meu corpo para ter a autoestima necessária para falar com as pessoas.”

Desequilíbrio

Mas o que causa a vigorexia?

Sua origem não está clara, mas especialistas acreditam que pode ser uma condição genética ou fruto de um desequilíbrio químico no cérebro.

Experiências de vida também podem ser um fator. A vigorexia pode ser mais comum em pessoas que sofreram abusos ou foram alvo de gozação de colegas durante a infância.

A mãe de Oli Loyne, Sarah, acredita que ele tornou-se vigoréxico por sua insegurança com sua baixa estatura, de 1,57m.

“Ele queria compensar isso tendo o corpo mais largo possível”, afirma ela.

Loyne começou a malhar excessivamente e a tomar anabolizantes quando tinha 18 anos. Aos 19, teve dois ataques cardíacos e um derrame. Ele morreu após o terceiro infarto, um ano depois.

“Não conseguia mostrar a ele o que estava fazendo com seu corpo. Ele dizia ‘Preciso atingir o corpo que vejo na minha mente. Preciso ficar grande'”, diz Sarah.

‘Perdi minha casa, a namorada e o emprego’

O uso de anabolizantes pode ser um sintoma da vigorexia. Estas drogas podem aumentar o crescimento muscular, mas geram muitos efeitos colaterais, como queda de cabelo, atrofia dos testículos e problemas cardíacos e de fígado.

Willson diz ainda que, hoje, homens são cada vez mais condicionados a pensar que precisam ter determinada aparência para sentirem-se bem-sucedidos, poderosos e atraentes.

“Há uma pressão para que sejam musculosos, tenham um físico em formato de ‘V’ e tenham um abdômen definido.”

Adam Trice, de 31 anos, era um fisiculturista amador obcecado em ficar cada vez maior. Essa busca pelo corpo “perfeito” fez também com que estivesse sempre na academia.

“Comecei com 76 kg e com a meta de chegar aos 95 kg. Quando cheguei aos 95 kg, quis chegar aos 105 kg. Depois, aos 120 kg. Você sempre quer algo mais. Seu objetivo vai aumentando”, diz ele.

Ele acabou perdendo seu emprego, sua namorada e sua casa. Ficou tão deprimido que tentou se matar.

“Estava infeliz. Não tinha paz. Não estava lidando com meu problema e cheguei a um ponto horrível”, diz Trice, que foi parar no hospital e obrigado a obter ajuda profissional.

“Fiz muita terapia e descobri muitas coisas sobre mim mesmo. Aprendi a gostar de como sou”, afirma.

Batalha mental

Pradeep, que abre esta reportagem, também diz que a vigorexia se transformou numa constante batalha mental.

Ele diz que, nos piores dias, sua autocrítica excessiva o faz pensar que tudo está errado em seu corpo.

“Houve diversas vezes que olhei no espelho e fiquei enojado comigo mesmo”, conta.

E diz que, apesar de ter um físico que deixaria alguns com inveja, ele não se sente orgulhoso de seu corpo.

“Quando estou na academia, uso um casaco com capuz. Não quero atenção nem simpatia. Não quero que ninguém me elogie. Quero apenas malhar”, afirma.

“Isso me faz ser muito modesto. É simplesmente a forma como me sinto.”

Fonte: http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/bbc/2015/09/22/vigorexia-o-disturbio-das-academias-que-leva-ao-desejo-de-ter-corpo-cada-vez-maior.htm

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